Ao se melindrar com palavras sebosas, percebia um calor oriundo do mais profundo e rotundo submundo. O ego. Não quero parecer pragmática ou coisa parecida, mas não se deve alimentar esse bicho estranho, escuro, estúpido que nos corrói as entranhas e transforma a face de mephisto num quase buda da compaixão. Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega, te pega daqui, te pega de lá. Quero ver caírem os umbigocentistas de plantão. Ainda sentirão, ainda sentirão...
E eu na minha concha, entro larva, saio pérola. Quanto mais me protejo, mais me protejo.
É só carcassa, meu filho. Só carcassa. Não vale isso tudo, nem vale nada. Ou melhor, não sabemos o valor real, ou o valor é muito relativo como tudo na vida. Mas, e daí? Quam dá a medida é você. Se alguém supervaloriza alguma coisa, é você mesmo, neném. Pára de se cutucar. Abre esses olhos de madre-pérola, estufa esse peito de pombo de prata. Aquece esse coração de lagarto esfomeado, aracnídeo dos infernos. Sê gente, oh! Sê gente. Veja na minha mão, que ela está estendida a você. Que você pode pegar nela e achar algum conforto. Eu quero o oposto do osso. Você quer exatamente isso. O mundo gira aos nossos redores...ao redor de cada um e entre todos, e rodopia por aí e volta pro nosso centro. O centro é seu e eu tenho o meu. Não deixe as areias cobrirem seu caminho. As passadas foram lentas e dolorosas. Não podem ser esquecidas. Há que pisar nos mesmos passos para mantê-los na sua história. Não deixar para trás...
Estavam todos sentados à mesa. Ouviam-se vozes estáticas e eram palavras entrecortadas. Um dizia que era medo, outro dizia que era luxo.
Não se pode contrariar a vontade alheia, dizia o outro. Era somente uma tentativa. Sabe aqueles que não se tocam, que não se comunicam? Havia uma impossibilidade de entendimento.
A menina chorava e aos soluços debruçava-se sobre a mesa. Não lhe entrava na cabeça como poderia ser tão difícil. Queria dizer tudo o que sentia, porém...não saía. Somente lágrimas.
Foram contadas inúmeras histórias, inclusive algumas hilárias. Todo riram. Mas, novamente um silêncio arrebatador se instaurava no recinto. O propósito era agregar. Unir aquela gente tão diferente que era do mesmo sangue.
Um abriu a boca e só saíam faíscas, fagulhas, veneno. Então, calou-se.
Outro tentou abraçar a menina que com um cotovelada o afastou. Não, não é assim que funciona. Temos que conversar. Abrir o báu, tirar todas as roupas velhas e sujas e separar, uma a uma, e lavar.
Estou tentando, dizia a mais velha. Estou tentando há muito tempo e estou cansada já.
Por alguns minutos se entreolharam, muito seriamente. Nada acontecia.
Aos poucos, foram se levantando e lentamente se retirando da sala.
Deixariam para outra hora. Outro momento. Não funcionou. Tentarão num futuro próximo.
Enquanto via os noctilucus, centenas de luzesinhas piscavam, tudo respirava e eu respirava junto. Tudo era vida e brilhava. Era moonlight over Praia Vermelha. E o coração batia apressado, pois ardia.
Diáfano, o mar. Vi uma raia pintada deslizando sutil, sem pressa, toda linda. E tartarugas marinhas e peixes e águas vivas....começo a me sentir muito bem, e que sorte tamanha tenho nesta vida! A vida gritando: oiiiiiiiiii! E eu tava lá: oiiiiiiiii! Tô aqui, Brasil! Lindeza demais...
Assistia curiosa àquela reunião onde era uma estranha, mas isso não me incomodou. Um entorno agradável e harmonioso. Pessoas de bem, do bem. Senti um bem-estar profundo...nunca tive disso. Achei bom.
Dicotomia dos sentidos e eu lá tentando drilbar uma terrivelmente forte tpm, mêda de mim. Lutando ferozmente para não soltar o leão que ruge forte aqui dentro...mas era tudo tão lindo. Por momentos parecia haver um sapo na minha garganta, coachando e inchando, inflando os sentidos e qualquer cutucada que eu levasse seria suficiente para eclodir uma guerra! Mas, o amor pairava, não teve cutucada, teve sorrisos e abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim...e eu via, lindo. Achava tudo lindo. O amor venceu. Ufa!
Agrdeço por isso. O carnaval se foi sem passar por mim. Achei bom.
O amor cresceu, fortaleceu, criou raízes profundas. Achei bom.
Preciso de alguém que me trate com carinho, que trate com tato. Que tenha cuidado ao cuidar de mim e que aceite meus cuidados também. Pois sou cuidadora....mãezinha. Trato das feridas alheias ainda melhor do que das minhas...
Preciso de algúem que me engula, mastigando devagar...
Porque tenho uma carga, e essa carga por vezes me pesa demais...tanto que não aguento e desabo. arrrghhhhhh!
Porque será que a convivência é tão difcil., Não precisamos conviver, mas o sangue. O sangue nos obriga a algo tremendamente obscuro. Por que essa obrigação? Não me sinto ligada à nada. Nao me sinto parecida, familiar....não me sinto pertencente a esse mundo. E, mesmo assim, choro suas dores. Choro todas as dores...e quando não choro, sofro por não ter vontade de chorar. Minha vida se edifica e desaba a cada segundo. Tenho medo de não me conter. E medo da felicidade que há em mim. Porque não ser feliz quando se pode? Pois sofro o sofrimento dos outros e carrego a cruz que não é minha. Mas a culpa, essa desgraça cristã abominááááável e tão intrínseca na nossa confusão de ser, me faz perder os caminhos e errar os destinos a que me proponho.
Estou farta!
Mas não hesite. Não hesite em me deixar se o fardo for por demais grande, pesado ou enfadonho...mas me deixe de vez. Me deixe só. O sofrimento da solidão me é inconcebível!!! Mas ainda o prefiro. Prefiro a solidão ao nada. Ao vazio. Ao superficial.
Me ame com as entranhas....me faça parte de mim como eu de ti. Porque somos humanos e precisamos de carne, sangue e ossos.
Quero me ver feliz assim como a você.
Minha felicidade não depende você, mas você pode muito bem causar minha infelicidade. Se me basto como sou, posso ser sozinha. Mas me dê você de amor!
Me dê amor cheio de você!
Vida, amor e suor...muito suor pra lavar nossa alma...lama que sai dos poros entupidos por essa poluição negra que nos envolve.
Desopila-me!
Não me basto e somente a essa conclusão que chego.
De T.S. Elliot, discípulo de Baudelaire, grande amante de Paris e todas suas gostosuras dos anos 20. Anos de liberdade e libertinagem, medo e fúria, delícia, gozo e drama:
East Coker
Em meu princípio está meu fim. Umas após as outras As casas se levantam e tombam, desmoronam, são [ ampliadas, Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar Irrompe um campo aberto, uma usina, um atalho. Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos [ para novas chamas, Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre [ a terra semeadas, Terra agora feita carne, pele e fezes, Ossos de homens e bestas, trigais e folhas. As casas vivem e morrem: há um tempo para [ construir E um tempo para viver e conceber E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas [ vidraças E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a [ silente legenda.
Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina Sobre o campo aberto, abandonando a recôndita [ vereda Cerrada pelos ramos, sombra na tarde, Ali, onde te encolher junto ao barranco enquanto [ passa um caminhão, E a recôndita vereda insiste Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha. As dálias dormem no silêncio vazio. Aguarda a coruja prematura.